Ele cresceu, e agora?

ELE CRESCEU, E AGORA?

Era páscoa de 1994, não lembro o dia certo da semana, mas foi antes do feriado.

Peguei o resultado no posto de saúde do exame de sangue: POSITIVO

Casar? Como assim?
Eu e ele, no dia que chegamos da Maternidade

Por um momento minha pernas ficaram bambas, sentei no meio-fio e chorei. Tinha 19 anos e estava de fato grávida!

Me permiti não pensar em nada, peguei o ônibus elétrico na Av. Alvaro Ramos e fui rumo ao centro de São Paulo. Durante todo o caminho fui imaginando como seria ser mãe..

Subi a Ladeira Porto Geral, no centro e entrei na primeira loja de bebê que vi. Comprei um macacãozinho branco, meias, luvas e uma touca. O funcionário embrulhou em um papel pardo e saí com o pacote nas mãos.

Vaguei pelo centro por algum tempo e peguei o ônibus de volta.

Casar? Como Assim?
Todo faceiro rs rs

Guardei segredo por alguns dias, pois era sozinha e morava com meus avós. Larguei o colegial e trabalhei por mais alguns meses.

Vivi a gravidez na totalidade, amava sentir as mexidas do bebê, o sono delicioso que sentia e a fome animal que me consumia. Engordei 33 quilos, mas estava feliz! Seria mãe!!!

Gustavo nasceu em 19 de novembro de 1994, em um ano épico. Ano que o Brasil foi tetra-campeão no futebol, Ayrton Senna morreu na pista da Itália e o avião dos Mamonas Assassinas caiu na Serra da Cantareira em SP.

Dizem que quando a gente “fica velha” as lembranças mais perfeitas são as da primeira idade, e é verdade! Aos meus quase 4.2 lembro com perfeição de muitos momentos vividos com Gustavo enquanto bebê.

Casar? Como assim?
Ele dançando festa junina na pré-escola

Gustavo completará 22 anos agora em novembro e recentemente chegou até mim e disse:

_ Mãe, vou casar dia 16 de Dezembro de 2016!

Como assim, casar?

Como aquele bebê gostosinho, que ainda pouco corria pelas ruas, brincava de bola e pedia colo da mamãe vai casar?

Casar? Como Assim?
Gustavo e a noiva, Carolina nas olimpíadas do Rio 2016
Casar? Como assim?
Gustavo e Carolina

É… eles crescem, eles crescem! Ele cresceu!

Tem um texto que choro a cada leitura e neste momento que estou vivendo, ele faz mais sentido ainda, escrito pela linda Cinthia Dalpino no Mãe At Work, que tive o enorme prazer de conhecer há 3 meses.  Vou replicar o texto abaixo, com a devida autorização.

“Onde eu estava enquanto elas cresciam?”

Cinthia Dalpino

Ela entrou no quarto e as crianças não estavam. Viu os papéis de parede desbotados, as camas vazias, e sentiu um vazio no coração.

O vazio…

não era tão impactante quanto o silêncio. Não haviam gritos de crianças, nem vozes ou sussurros.

Andou pelo corredor até a cozinha. A casa estava em ordem. Não havia brinquedo pelo chão, roupa espalhada pela casa, nem restos de frutas esfregados no sofá.
A parede estava branca. Sem nenhum risco de giz ou mão engordurada.

No porta retrato, as fotos daquelas meninas crescidas. Nem parecia que tinham sido crianças um dia.

Não precisava mais dar remédios, escolher a roupa ou levá-las a lugar nenhum.

Tinha todo o tempo que queria para si, mas não sabia o que fazer com ele.

Sentiu falta do barulho. Mas não queria qualquer barulho. Queria aquele grito de uma delas chamando ‘mãe, e pedindo qualquer coisa.

Qualquer coisa que não fosse o silêncio.

Lembrou de quando elas começaram a ficar silenciosas. Tinha sido repentinamente. Depois de ignorá-las enquanto precisava fazer algumas coisas. Elas foram se acostumando com aquela falta de diálogo, com o tempo escasso, e se conformando consigo mesmas. E perdendo o interesse nas conversas inexistentes com a mãe.

Quando percebeu, era tarde demais.
Elas já tinham crescido. Só se percebia a ausência.

Voltou para o quarto, tentou dormir. Precisava de tanta coisa para preencher aqueles espaços vazios, que não sabia por onde começar.

Onde tinha ido parar o tempo?

Sentiu vontade de voltar. De fazer tudo denovo. Queria a bagunça na casa, as filhas pequenas. Aquela alegria que não se comprava. Sentia falta da voz delas, do cheiro. Da espontânea maneira como tornavam sua vida mais inconstante.

Como tinha deixado a vida passar sem perceber isso? Queria voltar no tempo em que elas eram crianças.

Tê-las de volta no colo ou penduradas no pescoço. Ou simplesmente enroscadas com ela na cama numa noite fria.

Seu coração ficou apertado. Tão apertado que não conseguia respirar. Sentiu-se sufocada.

A respiração parou. Tudo ficou escuro. Ouviu o despertador.

Tinha sido um sonho.

Recompôs-se e notou que as filhas dormiam em sua cama. A casa estava bagunçada. Seu sono ainda estava atrasado e as paredes ainda estavam riscadas.

Ainda tinha sono, mil coisas pra fazer, e nem tudo parecia perfeito.

Mas não poderia estar mais perfeito que aquilo.
Não, não poderia.

Fonte: Mãe At Work

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